Uma vez escutei falar
que as taxas de suicídio aumentam no verão. Não pelo calor, ou acidentes, mas
porque é nessa estação que todos se reúnem e saem em busca de diversão. Então é
nesse momento que os solitários se percebem sós. Ando no verão. Me pego pensando
em todas as relações que posso chamar de minhas. Porém, penso especialmente nos
amores. Todos aqueles que não tenho mais e por isso reflito. De uma vida curta,
muito pequena ainda, apenas vinte anos, mas idade suficiente para desamores de
uma existência toda. Não sei se por um narcisismo não assumido ou uma verdade
plena, me vejo como uma pessoa cativante, daquele tipo que dificilmente um
desafeto virá de uma atitude partindo de mim. E vejo também uma pessoa que não
gosta de complicações ou brigas desnecessárias. Aí paro e penso: Por que sou
só? Só no sentido melancólico mesmo, de dor e reflexões. Sempre acompanhada mas sempre, também, em
condições postas. Nunca naquele amor que parte do ideal romântico de “amor para
vida inteira”. Não, não digo nunca, contudo, quase sempre. Contabilizo três
amores desse modo. Todos acabaram. Um pela pouca idade e imaturidade da
adolescência, outro pelos novos tempos de liberdade, onde não cabe ser só de um
amor, e o ultimo por objetivos maiores de uma vida a qual eu não tenho um espaço
reservado. E, claro, tive muitos outros pequenos romances, que não se fazem
vivos hoje pela própria natureza do interesse. Ah, ainda devo dizer de um atual
que ainda nem sei o que é, mas tenho impressão de terá o mesmo destino dos
outros. Não pelo fato de falta de vontade de minha parte, mas a criatura que me
envolvo atualmente (nem sei se envolver é uma palavra correta, pois, a meu ver,
para isso é necessário reciprocidade), mas pela sua essência de ser livre
demais, tem o mundo em mente e quem sou eu para ser um mundo capaz de ofuscar o
mundo real. E é exatamente nesse ponto que acho o centro da minha reflexão: a
liberdade. Ora, logo ela que tanto adoro e prego, ela que acho ser a condição
para a existência de qualquer relação. Ela sim, a liberdade que tanto louvo é a
mesma liberdade que me deixa em verão. De todos amores que vivi acabaram pela
liberdade que dei ao outro. Sempre deixo a liberdade de escolha de me amar ou
não, de querer ficar comigo ou não, de querer ir ou não. Sempre digo que o
outro é livre para construir a relação que se sentir a vontade. Esse é o
problema, é difícil admitir uma carência, mas de toda essa liberdade que dou no
fundo o que mais suplico é o estar junto. O fator liberdade é a vontade de que
seja espontâneo, não gosto de forçar nada a ninguém, porém, tem me parecido que
as pessoas interpretam isso como indiferença ou que aqueles que forçam sentimento
o conseguem. É complicado pensar nisso tudo porque, na verdade, até que ponto o
problema não está comigo também? Até que ponto tudo que sofri até hoje foram
expectativas desnecessárias de um Eu em falta? E se for assim, como mudar? E só
de pensar no quanto a vida é longa e quanto esses ciclos de identificação,
cortes e necessidade de sublimação vão se repetir me dá uma aflição... Mesmo
assim creio que não devo pensar nesse futuro. Enfim, só vivendo e chegando ao
fim da vida para saber, ou talvez nunca saiba o porquê desses desamores
constantes. Talvez tudo isso não passe de ridículas reflexões de uma noite de
inverno com uma pessoa em verão.
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